Não sei responder a pergunta. Não sei qual o limite do tratamento, da resposta natural do corpo e da força da crença de alguém. Acho que a "ignorância", ou o desconhecimento de certas coisas podem estimular o otimismo e potencializar a fé. Digo isso pensando em algo intrigante que aconteceu hoje. Uma adolescente de 14 anos, cuja beleza estampada em uma foto acima da cama, já não está mais presente desde que passou por algumas cirurgias para retirada de um tumor cerebral agressivo. As cirurgias não foram bem sucedidas e o tumor continua crescendo. Como tentativa de maior qualidade de vida, foi optado por uma traqueostomia, já que o tumor não permitia que ela respirasse totalmente por si, dependendo dos aparelhos. Sua mãe, inconformada, disse à enfermeira que iria à igreja orar para que sua filha não realizasse o procedimento, pois queria sua filha respirando por conta própria. Momentos antes do procedimento agendado para hoje ela simplesmente, num momento de lucidez, mesmo sob sedação, resolveu retirar sua cânula traqueal (muito bem fixada por sinal) e decidiu respirar. Saímos todos correndo pela UTI com os materiais na mão para reintuba-la, mas ela estava acordada, consciente e respirando muito bem. Nos olhamos assombrosamente e decidimos suspender a cirurgia, dando a ela a chance de não depender de equipamentos. 

Ainda acho que o tumor é agressivo demais e mantenho meu pessimismo acerca da doença. Sabemos que 100% dos casos evolui para óbito em 6 meses. Mas quem sou eu para duvidar da força que tem o desejo verdadeiro de uma mãe em ver sua filha melhorar? Prefiro buscar o equilíbrio e não ser inocente demais, pois vejo muitos finais infelizes inevitáveis diariamente. Mas luto para não ser cético, pois o poder da fé é inegável. Pode até mover montanhas, não é?

Abraço.

11.5.11

Sorriso

Ainda não sei como é essa coisa de paternidade e tal, deixa isso um pouco para depois. Trabalho com famílias todos os dias e, quase sempre, a relação é puramente profissional. Mas hoje fiquei tão ou mais feliz que os pais ao ver a pequena sorrir. Estamos acostumados a ver rasgos nos peitos dos mais velhos, aqueles que geralmente cuidaram pouco da alimentação e viveram de extravagâncias, mas quando os cortes são feitos em crianças que nasceram com alguma cardiopatia, a tensão é maior.

Essa moça de 3 anos necessitou de uma correção complexa e teve várias intercorrências no pós-operatório, todas resolvidas. Quando tudo estava aparentemente bem, resolvemos extubá-la, como de costume. Mas no exato momento que a cânula foi retirada, sua via aérea fechou e ela não pôde mais respirar. Precisamos reintubar às pressas. Sabíamos que ela tinha um estreitamento prévio, mas nada parecido com isso. A broncoscopia mostrou que a traquéia era mais obstruída que imaginávamos e o medo era o de não conseguir mais tirar aquele tubo, sem uma traqueostomia.

Medicamos com corticóides e após cinco dias resolvemos dar a ela mais uma chance. E ela aproveitou bem. Ficou um pouco desconfortável no início, mas logo se adaptou e dormiu. Hoje, me espantei com sua tranquilidade assistindo os desenhos. Perguntei se queria que aumentasse o volume e ela sinalizou que sim. Após algumas brincadeiras sem graça, veio o sorriso. Olhei para a mãe, sorri também e respiramos aliviados. Apenas sorri quem tem motivo para isso, e hoje todos nós tínhamos.

Boa semana.

5.5.11

Vida na morte

Apenas um descuido, não mais que um segundo. Na liberdade de seus 6 anos ele solta a mão de sua mãe e corre. Sua irmã de 4 anos, na sua limitada compreensão, percebe o perigo e grita. O aviso não foi suficiente. O veículo, mesmo que em velocidade permitida, não pôde parar e o atingiu com força. Um trauma grande demais para ele. E para todos.

Seu corpo resistiu com bravura enquanto repousava na UTI, mas seu principal sistema não suportou as conseqüências de tamanho impacto. Ao quinto dia, após inúmeros exames, o doppler craniano finalmente constatou a ausência de fluxo sanguíneo cerebral. Morte encefálica. Os demais órgãos viviam, menos o fundamental.

Presenciei parte da conversa do grupo de captação de órgãos com os pais, em que explicavam que a doação dos órgãos saudáveis poderia beneficiar outras crianças, mas duvidei se em algum momento eles realmente ouviam o que era dito. O olhar da mãe se perdia na janela. As lágrimas não saiam dos olhos do pai.


Na manhã seguinte a mãe permanecia em vigília ao lado do filho. A decisão foi positiva em doar os principais órgãos. Os pais, visivelmente transtornados, não conseguiam compreender como um corpo aparentemente são, não possuía mais vida. E, enquanto a criança descia ao centro cirúrgico para a captação dos órgãos, a família enfim percebeu que ele partia e o choro alto e inconsolável da mãe ecoou pelo hospital.


Momentos antes da criança deixar a UTI a mãe confidenciou que a filha menor lembrava com detalhes de tudo e perguntava insistentemente do irmão. Ela não sabia como preparar a criança para o pior. Na verdade, ela também não estava preparada. Apesar do profissionalismo que tentamos exibir, nehum de nós estávamos preparados. Nunca estamos. A morte de uma criança é sempre muito triste, ainda mais somada à uma espera sofrida e a difícil decisão de doar os órgãos do próprio filho. Admiro essa família que tirou algum benefício da desgraça e não permitiu que a morte do menino fosse em vão. As crianças que receberam seus órgãos um dia crescerão e certamente o agradecerão por isso.


Acho que vale a pena pensar nisso.

Abraço.

13.4.11

UTI pediátrica

Mudamos. De título e de vida. Agora pediatra e em um rumo diferente do que havia escolhido dentro da especialidade. Não que a cardiologia tenha me decepcionado, pelo contrário, meu estetoscópio ainda é um grande amigo. Mas a terapia intensiva pediátrica me seqüestrou na reta final. A pediatria geral, exercida de maneira intensiva, como o nome diz, me atraiu. Já se foram dois meses e tenho aprendido muito. Não posso negar que o ambiente de trabalho é às vezes carregado de histórias tristes e famílias inconsoláveis, mas a maioria das crianças que precisam de uma UTI, felizmente se recuperam e é muito bom fazer parte desse processo. A gratidão dos pais é o melhor pagamento.


Esse tempo de aprendizado, entretanto, tem custado boa parte do tempo e me distanciado cada vez mais das redes sociais, inclusive deste pobre blog. Mas procurarei compartilhar nos próximos meses um pouco das excelentes experiências que tenho vivido.

Boa semana, abraço.